O tratamento para o controle da asma exige conhecimento sobre a doença pelos pacientes, familiares, cuidadores e profissionais da saúde. E o uso diário, contínuo e correto dos dispositivos inalatórios, as chamadas bombinhas, é essencial neste processo. A enfermidade estreita os brônquios, que são canais que levam ar aos pulmões. Isso dificulta a passagem do ar e provoca contrações ou broncoespasmos. Essas crises afetam a respiração. Os dispositivos inalatórios ajudam a aliviar essa condição e auxiliam no controle da asma. Mas, muitos pacientes não usam esses aparelhos corretamente. O resultado disso é o descontrole da doença e os eventos adversos, ou seja, os efeitos indesejados. É o que ressalta a farmacêutica clínica Juliana Soprani, do Instituto de Cadiopneumologia (Incor).

“A maioria dos pacientes esquece de soltar o ar antes de fazer a inalação, então quando ele vai puxar o ar para fazer a inalação ele não tem espaço suficiente no pulmão pra ter essa força de inalação. Então esse é um erro importante que dificulta tanto a utilização desse dispositivo quanto do sucesso da terapia. Um segundo erro também bastante comum é que os pacientes não seguem a recomendado de, ao fazerem a inalação, segurar o ar por pelo menos 10 segundos. Porque quando ele faz isso dá tempo suficiente para que aquele medicamento chegue o mais profundo possível no pulmão.”

A farmacêutica também aponta outros erros comuns cometidos pelos pacientes, como não fazer a lavagem da boca após o uso do inalador. Ela explica que alguns dispositivos possuem corticoide em sua formulação, o que pode causar efeitos indesejados se o paciente pular a etapa de higienização.

“Quando o paciente faz a inalação parte daquele aerossol que ele inalou fica retido na boca e na garganta. E aquele corticoide que ficou ali retido tem o potencial de mudar o PH da boca e pode causar sapinho ou candidíase oral, que é uma doença é causada por um fungo. Quando se modifica o PH da boca se facilita para que esse fungo se instale aí. Então toda vez que o paciente fizer uma inalação com um medicamento que tem corticoide na sua composição ele precisa enxaguar muito bem a boca, fazer gargarejo e cuspir essa água. Além do sapinho tem algumas bombinhas que, se o paciente não faz o enxague, podem causar tosse e rouquidão.”

Mitos

Usar bombinha pra asma engorda e causa problema no coração. Quem tem asma certamente vai ser um paciente grave de Covid. Bronquite não tem nada a ver com asma. Depois de controlada a crise, não precisa mais usar bombinha. Certo? Errado! Muitas dessas afirmações são mitos e podem confundir o paciente. Juliana Soprani lembra que a asma é uma doença inflamatória crônica, não tem cura, mas tem controle, se o medicamento for usado de forma contínua, diária e corretamente, conforme prescrição de um pneumologista e orientação do farmacêutico. Para ela, a maior dificuldade é a compreensão da doença pelo paciente. Muitos acabam abandonando o tratamento após passar por um momento de crise.

A farmacêutica explica que existe um tratamento para a crise e outro para o controle diário da asma. O objetivo do tratamento de controle diário é controlar a inflamação e impedir que sua piora desencadeie as crises e os sintomas da Asma. Para este tratamento o padrão ouro é utilizar o corticoide inalatorio. Já o tratamento das crises é pontual e tem como objetivo aliviar os sintomas da Asma, especialmente a falta de ar, utilizando-se um broncodilatador. Na nova atualização da diretriz da GINA (Global Iniciativa para o controle da Asma) ela recomenda que mesmo nas crises, quando o paciente precisa utilizar um broncodilatador, como o salbutamol, é ideal que ele também associe o corticoide inalatorio. Essa associação também nas crises tem demonstrado um maior controle dos pacientes.

Quanto ao temor de o medicamento pode engordar, ela explica que os corticóides inalatório e nasal não contribuem para o aumento de peso, até mesmo porque a dose dessa substância presente nesses dispositivos é muito pequena e age de forma local. Muita gente também deixa de fazer o controle frequente porque já ouviu falar que as chamadas bombinhas podem causar problema no coração. A especialista esclarece que não é bem assim.

“Sabemos que alguns broncodilatadores podem causar taquicardia. Tem paciente que relata aceleração dos batimentos cardíacos. Isso geralmente acontece nas primeiras utilizações ou quando o paciente utiliza uma dose um pouco maior do que ele está acostumado. Isso é uma reação esperada. Mas essa reação tende a passar conforme ele vai utilizando e se sensibilizando com o medicamento. Antes as pessoas falavam que a bombinha dava parada cardíaca. Isso é um grande tabu, como diria hoje, “fake news”. E por essa razão todo medicamento deve ser utilizado por meio de uma prescrição médica e a orientação e acompanhamento de um farmacêutico. Caso o paciente tenha uma doença cardíaca de base ele deve ter um acompanhamento em conjunto com um médico cardiologista e pneumologista para a escolha do medicamento mais apropriado e que minimize interações medicamentosas e reações indesejadas.”

Quem tem asma certamente vai evoluir para caso grave de Covid? Segundo Juliana, no início da pandemia, acreditava-se que sim. Mas, depois ao acompanhar esses pacientes, percebeu-se que essa não é bem a realidade. Mesmo assim, a orientação é manter os cuidados necessários diante dos poucos dados existentes sobre o assunto.

“Havia uma expectativa muito grande de que esses pacientes poderiam ser os pacientes com Covid mais graves. E por alguma razão que não conhecemos ainda, não foi. Tivemos poucas complicações com pacientes asmáticos. Não estou dizendo que não teve nenhum asmático que não ficou grave, não é isso, mas a expectativa era de uma Covid mais grave e não foi isso que aconteceu. Então foi feito um plano de ação de atendimento a distancia dos pacientes orientando também pra tomar todos cuidados, evitar sair de casa, utilizar máscara, uso de álcool em gel, desinfetar compras de mercado, evitar aglomeração e o contato com outras pessoas que não moram na residência, e manter o tratamento de controle.”

Juliana Soprani atua como farmacêutica clínica na Unidade de Terapia Intensiva do Incor. Lá ela e uma equipe interdisciplinar desenvolvem uma pesquisa sobre asma. A especialista também atuou no Hospital Santa Paula, em São Paulo, onde contribuiu na implementação de protocolos para doenças respiratórias. É professora na pós-graduação de Farmácia Clínica, Hospitalar e Atenção Farmacêutica do Instituto Racine.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support